Tratamento da enxaqueca: o que funciona na crise, na prevenção e o que mudou em 2026
Dr. Diógenes Umaki12 de outubro de 2026
Tratamento da enxaqueca: o que funciona na crise, na prevenção e o que mudou em 2026
A enxaqueca é uma doença neurológica, não uma dor de cabeça comum, e o tratamento tem dois braços: aliviar a crise e reduzir a frequência das crises. Este texto explica as opções disponíveis, quando a prevenção está indicada, o risco do uso excessivo de analgésicos e as novas medicações aprovadas pela Anvisa neste ano.
Enxaqueca é doença do cérebro
Na enxaqueca, o cérebro processa estímulos de forma diferente: luz, barulho, cheiros, jejum, privação de sono e variações hormonais conseguem disparar uma crise com mais facilidade do que em outras pessoas. Durante a crise, um sistema de nervos que envolve as meninges libera substâncias inflamatórias. A mais estudada delas é o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), alvo das medicações mais recentes.
A dor costuma ser latejante, de um lado da cabeça, piora com esforço físico e vem acompanhada de náusea, incômodo com a luz e com o som. Cerca de um terço das pessoas tem aura: alterações visuais (pontos brilhantes, linhas em zigue-zague, falhas no campo visual) ou formigamentos que duram de 5 a 60 minutos e antecedem ou acompanham a dor.
Tratamento da crise
O objetivo é tomar a medicação certa, cedo e na dose adequada. Remédio tomado quando a dor já está no auge funciona pior.
* Anti-inflamatórios e analgésicos simples (como dipirona, ibuprofeno, naproxeno, paracetamol): resolvem crises leves a moderadas em boa parte dos pacientes.
* Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, naratriptano, zolmitriptano e outros): específicos para enxaqueca, indicados para crises moderadas a fortes ou que não respondem aos analgésicos. Não devem ser usados por quem tem doença coronariana, AVC prévio ou hipertensão não controlada.
* Gepantos: bloqueiam o receptor do CGRP. Em maio de 2026 a Anvisa registrou o rimegepanto, em comprimido que se dissolve na boca, com indicação tanto para a crise quanto para a prevenção. É uma alternativa para quem não tolera ou não pode usar triptanos.
* Antieméticos (metoclopramida, domperidona): ajudam na náusea e melhoram a absorção dos outros remédios.
O risco de tomar analgésico demais
Usar remédio para dor com muita frequência pode transformar a enxaqueca em dor de cabeça quase diária. Esse quadro se chama cefaleia por uso excessivo de medicação e é uma das causas mais comuns de cronificação. O limite de referência é de cerca de 15 dias por mês para analgésicos simples e 10 dias por mês para triptanos, combinações de analgésicos ou remédios com cafeína.
Quem já precisa de remédio para dor de cabeça mais de dois dias por semana deve conversar com o médico sobre tratamento preventivo, em vez de aumentar a dose ou trocar de analgésico por conta própria.
Quando fazer prevenção
O tratamento preventivo é diário (ou mensal/trimestral, no caso dos injetáveis) e serve para reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises. Costuma ser indicado quando há:
* 4 ou mais dias de enxaqueca por mês;
* crises que causam faltas ao trabalho ou à escola, mesmo que menos frequentes;
* falha, contraindicação ou efeitos colaterais dos remédios da crise;
* uso excessivo de analgésicos;
* auras prolongadas ou formas raras da doença.
O efeito não é imediato. A maioria das medicações precisa de 8 a 12 semanas na dose adequada antes de se concluir que funcionou ou não. Um diário de dor de cabeça (papel ou aplicativo) é a forma mais confiável de medir essa resposta.
Opções preventivas
* Medicações orais tradicionais: betabloqueadores (propranolol, metoprolol), amitriptilina, nortriptilina, venlafaxina, topiramato, flunarizina e candesartana. Foram desenvolvidas para outras doenças e depois se mostraram eficazes na enxaqueca. São baratas, várias estão no SUS, e a escolha depende de outras condições do paciente: pressão alta, insônia, ansiedade, peso, desejo de engravidar.
* Anticorpos monoclonais anti-CGRP (erenumabe, galcanezumabe, fremanezumabe): injeções subcutâneas mensais ou trimestrais, feitas em casa. São as primeiras medicações criadas especificamente para prevenir enxaqueca e têm boa tolerabilidade.
* Gepantos preventivos: além do rimegepanto, a Anvisa aprovou em setembro de 2026 o atogepanto, comprimido diário para adultos com pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês. Preço e disponibilidade nas farmácias ainda estavam sendo definidos no momento da aprovação.
* Toxina botulínica: aplicada a cada 12 semanas em pontos padronizados da cabeça e do pescoço, indicada para enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês).
Em 2024, a Sociedade Americana de Cefaleia passou a considerar as terapias anti-CGRP como opção de primeira linha, sem exigir que o paciente falhe antes com outros preventivos. Na prática brasileira, custo e cobertura pelos planos de saúde ainda pesam na escolha, e as medicações tradicionais continuam sendo boas opções para muitos pacientes.
Gestação e anticoncepcionais
Topiramato e valproato causam malformações no bebê e não devem ser usados por mulheres que planejam engravidar sem contracepção eficaz. Os anti-CGRP também não são recomendados na gestação, por falta de dados de segurança. Mulheres com enxaqueca com aura têm risco aumentado de AVC com anticoncepcionais que contêm estrogênio; o tipo de contraceptivo deve ser discutido com o médico.
O que não é remédio, mas faz diferença
* Horários regulares de sono, inclusive nos fins de semana.
* Não pular refeições e manter boa hidratação.
* Atividade física aeróbica regular, que tem efeito preventivo comparável ao de algumas medicações em estudos clínicos.
* Tratamento de condições associadas: insônia, ansiedade, depressão, apneia do sono, obesidade.
* Moderação com cafeína e álcool.
Gatilhos alimentares existem, mas variam muito de pessoa para pessoa. Dietas restritivas sem que o diário de dor mostre relação clara costumam empobrecer a alimentação sem reduzir as crises.
Sinais de alerta: procure atendimento imediato
Nem toda dor de cabeça forte é enxaqueca. Procure um pronto-socorro se houver:
* dor súbita e explosiva, a pior da vida, que atinge o máximo em segundos ou poucos minutos;
* dor acompanhada de febre, rigidez na nuca, confusão mental ou convulsão;
* fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, perda de visão ou alteração do equilíbrio que não seja a aura habitual;
* primeira dor de cabeça forte após os 50 anos;
* dor que mudou de padrão, piora progressivamente ou surge após trauma na cabeça;
* dor de cabeça nova em pessoas com câncer, HIV ou imunidade comprometida, ou durante a gestação e o pós-parto.
Em resumo
Enxaqueca tem tratamento, e a maior parte dos pacientes consegue reduzir bastante o número de dias com dor. O primeiro passo é um diagnóstico correto e um plano que inclua o remédio certo para a crise e, quando indicado, prevenção mantida por tempo suficiente para avaliar o resultado.
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica nem deve ser usado para iniciar, suspender ou alterar medicações por conta própria.
Dr. Diógenes Umaki — Neurologista
CRM-GO [10262] |